Por Ana Célia Macêdo | Foto: Wenisson Medeiros | 3 min de leitura
Setembro nos convida a falar de Independência e também pode ser uma oportunidade para refletir sobre identidade e pertencimento.
Vivemos em um país de dimensões continentais, com uma diversidade natural e cultural difícil de encontrar em outros lugares. Ainda assim, muitas vezes planejamos conhecer destinos distantes sem perceber o que existe a poucas horas de casa.
Por isso, acredito que valorizar o Brasil pode começar por algo muito simples: conhecer melhor o nosso próprio estado.
O paraibano descobrir a Paraíba. O paulista percorrer São Paulo. O mineiro conhecer outras Minas Gerais. E assim por diante.
Não se trata de deixar de viajar pelo Brasil ou pelo mundo. Muito pelo contrário. Trata-se de incluir o nosso próprio território entre os lugares que despertam a nossa curiosidade.
O mundo quer conhecer o Brasil. E nós?
O momento é oportuno para essa reflexão.
O Brasil recebeu cerca de 9,3 milhões de turistas internacionais em 2025, o maior número já registrado pelo país. Os gastos desses visitantes também alcançaram aproximadamente US$ 7,9 bilhões.
Há vários fatores por trás desse crescimento, entre eles a promoção internacional, a conectividade, o câmbio e, principalmente, aquilo que diferencia o Brasil de outros destinos.
Quem atravessa o mundo para chegar aqui quer encontrar natureza, gastronomia, cultura, história, música e modos de viver que tenham identidade.
Então me faço uma pergunta: quanto dessa diversidade nós mesmos conhecemos?
Há muito Brasil perto de casa
Nas viagens que faço pelo Nordeste e, especialmente, pela Paraíba, percebo que algumas das experiências mais interessantes estão longe dos destinos mais conhecidos.
São pequenos municípios, comunidades, engenhos, propriedades rurais, trilhas, manifestações religiosas, gastronomia, artesanato e histórias preservadas por pessoas que vivem nesses territórios.
Recentemente, em Baía da Traição, no Litoral Norte da Paraíba, conheci mais de perto o trabalho de Raoni Potiguara, indígena da Aldeia São Miguel, ecólogo formado pela Universidade Federal da Paraíba e guia de turismo.
Ao apresentar a cultura Potiguara aos visitantes, Raoni compartilha muito mais do que um atrativo. Ele conta a história de seu povo, apresenta seus saberes e mostra como a relação com o território pode se transformar em uma experiência turística sem se afastar da preservação cultural e ambiental.
Para mim, existe uma lição importante nesse trabalho: é preciso reconhecer primeiro o valor do lugar onde vivemos para depois compartilhá-lo com quem chega.
E essa riqueza assume muitas formas pelo Brasil. Pode estar na conversa com um artesão, em uma receita preparada há gerações, numa casa de farinha, em uma ave rara, num bordado ou numa trilha conduzida por alguém que conhece aquele caminho desde criança.
O que parece simples para quem vive ali pode ser justamente aquilo que torna um lugar único para quem o visita.
Nem todo destino precisa inventar um atrativo
Essa é outra questão que considero importante.
Quando um município decide investir no turismo, existe uma tendência de procurar algo novo para oferecer. Mas nem sempre é preciso criar.
O próprio Sebrae trabalha a relação entre turismo, identidade, patrimônio, memória e tradições locais na construção de experiências turísticas.
Muitas vezes, a principal riqueza de um município já existe.
Pode estar na culinária, na história, na paisagem, numa tradição religiosa, no artesanato ou no modo de vida de uma comunidade.
O que falta, às vezes, é enxergá-la.
Depois disso, claro, vem outro desafio: transformar esse potencial em uma experiência organizada, com pessoas qualificadas, preservação, empreendedorismo e participação de quem vive no território.
Viajar perto também movimenta a economia
Conhecer o próprio estado não é apenas uma questão de pertencimento. Também tem impacto econômico.
Quando escolhemos visitar um município próximo, movimentamos pousadas, restaurantes, guias de turismo, condutores, artesãos, produtores rurais e pequenos empreendedores.
Além disso, ampliamos a possibilidade de o turismo chegar a lugares que normalmente ficam fora dos grandes fluxos de visitantes.
É justamente aí que a interiorização ganha sentido. Não apenas como uma estratégia para criar novos destinos, mas como uma oportunidade de distribuir melhor os benefícios da atividade turística.
Conhecer também é uma forma de pertencer
Viajar pelo mundo amplia repertórios, ensina e nos aproxima de outras culturas. Mas conhecer aquilo que está ao nosso redor também nos ajuda a compreender quem somos.
Talvez seja esse o convite que quero fazer neste mês da Independência.
Olhar para o nosso estado com olhos de viajante. Percorrer seu interior. Experimentar seus sabores. Ouvir suas histórias. Conhecer as pessoas que preservam seus saberes e descobrir lugares que sempre estiveram perto, embora ainda fossem desconhecidos para nós.
Porque valorizar o Brasil não começa apenas quando mostramos nossas riquezas para quem vem de fora.
Começa também quando nós mesmos decidimos conhecê-las.



